quarta-feira, 1 de julho de 2015

3° dia de viagem - 14/05/2015

Acordamos bem cedo, comemos o restante das frutas e alguns pães, comprados em uma padaria próxima ao posto onde dormimos. Usamos o banheiro (ainda bem que tinha um disponível) do próprio posto, e aguardamos até a chegada do Matheus, rapaz que através do Facebook combinou de nos dar carona de Brasília até Alto Paraíso. O pessoal do grupo de caronas no Face geralmente pede 35 reais por pessoa, mas explicamos nossa situação e ele aceitou fazer por 25 cada um, ou seja, 50 no total.

Manhã de frio em Brasília


A polícia militar nos parou!

Logo que iniciamos a viagem, Matheus acendeu "unzinho". Nos ofereceu, mas não fumamos. Pouco depois, a polícia militar, em uma blitz, nos parou. Matheus tratou de esconder rapidamente o cigarro de maconha, enquanto saíamos do carro. Os policiais apontaram armas, e foram bem claros: "Todos pra fora com a mão na cabeça, AGORA!". Fomos revistados, e perguntaram se havia drogas no carro. Matheus admitiu que tinha um "fuminho", mas deixou claro que só ele era usuário. Enquanto a revista no carro era feita, outro policial conversou comigo, e ficou espantado quando eu disse que estávamos vindo de SP, de carona.

Engraçado mesmo foi quando começaram a revistar meu mochilão e encontraram meu pote de desodorante caseiro. Ele é uma mistura de óleo de coco com bicarbonato de sódio e mais algumas coisas naturais. Era de se esperar que um pouco de pó branco dentro de um pote chamasse a atenção de policiais, não é mesmo? Após esclarecer que se tratava de um produto de higiene apenas, o policial não chegou a procurar muito mais coisas, e deu uma olhada no mochilão da Grazi. O policial em questão tirou algumas sacolas de castanhas, nozes, frutas secas, olhou para um dos colegas de profissão e disse "Só coisas naturais aqui...", desistindo assim de uma busca mais apurada. Sua expressão era de "Estamos perdendo tempo com esses malucos naturebas", e ainda bem que ele não revirou tudo, pois nossos mochilões estavam muito organizados.

Após um leve sermão, ele só apreendeu a droga e nos deixou ir, orientando o motorista a não correr muito, e a parar com seu vício. Imaginei a quantidade de vícios que tais policiais tem, assim como grande parte da população mundial, por drogas lícitas, ou por produtos não vistos como "vilões". Mas isso não vem ao caso...

A chegada em Alto Paraíso, na casa do Nill

Havíamos combinado através do aplicativo "couchsurfing" de ficar alguns dias hospedados na casa do Nilton, conhecido por "Nill". Após o susto na estrada pela blitz policial, chegamos bem na pequena cidade, e fomos muito bem recebidos, por volta das 13:30.

Sorriso frugal - alegria por chegar em Alto Paraíso



Nill mora com seu sobrinho, e se auto considera um "quase xamã". Na sala, fotos de Jesus, de uma representação divina da Índia (Ganesha, se não me engano), e de uma mulher indígena. Praticante dos rituais que utilizam Ayahuasca (também chamado de Santo Daime) há mais de 20 anos, Nill nos proporcionou longas conversas. Sua visão de mundo, meu conhecimento sobre física e as experiências da Grazi deram origem a um bate-papo bem maluco, como era de se esperar

Passeio pela cidade e meditação budista

Fomos conhecer a cidadezinha, após um banho (finalmente!) e um descanso merecidos. Andando pela rua, ao passar por algo que parecia um templo, aproveitamos o portão aberto e entramos pra ver o que era. Fomos atendidos por Luis, que nos informou que aquilo não era um templo de meditação, mas sim sua casa. Por coincidência ele iria em uma meditação budista no centro da cidade dali a meia hora, e perguntou se gostaríamos de ir. Nós aceitamos. Ele nos convidou então para entrar em sua casa, nos apresentou a sua mulher e uma amiga, e por fim nos levou de carro até uma escola, chamada Escola Vila Verde, aonde aconteceria a meditação.

Essa foi a pegada da nossa viagem: deixar fluir. Por não termos fechado nenhum pacote de turismo, por termos pouca grana, e por termos bastante tempo, simplesmente deixamos as coisas acontecerem. Isso foi muito bom, pois tivemos experiências fantásticas desse modo. Conforme eu for descrevendo nossa viagem, creio que vá ficar bem evidente como o "deixar levar" pode ser algo muito proveitoso.

A Escola Vila Verde e seu método de educação diferenciado

Ao chegarmos, fomos apresentados ao Fernando e à sua mulher, ambos do Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB), e coordenadores da escola Vila Verde. Luis dizia "Eles vieram de São Paulo DE CARONA com caminhoneiros!" enquanto cumprimentavámos as pessoas, gerando é claro olhares bem espantados.

A Escola Vila Verde tem ligação com o CEBB, e por isso a meditação ocorreria ali, na escola. Pelo menos foi isso que entendemos, a princípio. Fizemos 20 minutos de meditação, e entoamos alguns mantras.

Antes da meditação começar, enquanto o pessoal chegava, Grazi reparou que em uma lousa estava o cronograma dos estudantes, e havia ali algumas atividades que indicavam que o modelo de ensino da escola era diferente do que estamos acostumados. Nós, como professores, ficamos bem interessados naquilo, até porque criticamos muito o modelo tradicional de ensino, no qual o professor é visto como detentor de todo o conhecimento, enquanto os estudantes são vistos como folhas em branco, preenchidas pelo professor. Esse método conteúdista e ultrapassado, aparentemente, ali não era praticado. Recebemos então o convite de visitarmos, em algum outro dia, a outra unidade da escola, localizada no meio rural. Obviamente, aceitamos!

Antes de voltarmos pra casa, passamos em um restaurante para tomar um chá.

Retorno pra casa e expectativas para o outro dia

Cheguei em casa muito satisfeito, e muito grato por tudo o que tinha acontecido no dia. Como era possível estar tudo dando tão certo? Conseguimos carona até Alto Paraíso (uma cheia de emoção, aliás), graças ao Nill conseguimos nos instalar na cidade, depois passeando pela mesma fomos convidados de forma tão simpática pelo Luis a entrar em sua residência, a meditar com pessoas maravilhosas, que por sua vez nos convidaram a conhecer outra unidade da escola... Nossa! Sem dúvida foi um dia intenso. E isso foi só o primeiro dia.

Mal sabíamos que o dia seguinte seria também repleto de coisas boas...

Saldo do dia

50,00 reais - Carona
2,30 reais - Pães
8,70 reais - Macarrão vegano (1 kg), molho de tomate, milho e cenoura
3,00 reais - Chá

TOTAL: 64 reais

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